domingo, 10 de novembro de 2019

Biodiversidade Marinha dos Açores


O arquipélago dos Açores localiza-se perto da crista meso-atlântica estando as ilhas dos grupos central e oriental situadas na microplaca dos Açores e as do grupo ocidental na placa americana. As águas dos Açores raramente descem abaixo dos 17ºC no Inverno e no Verão atingem em média 23-24ºC. É precisamente esta característica climatológica que permite que a diversidade marinha dos Açores ofereça condições únicas, nesta região do Atlântico, transformando-a, simultaneamente, num conjunto de características marcadamente subtropicais.
O oceano profundo (tudo o que se situa abaixo dos 1.500m) sendo tão desconhecido, mas interagindo com zonas costeiras dos Açores muito perto do litoral, permite, também, a formação de comunidades únicas e o estudo de espécies misteriosas a maior parte das quais com ciclos de vida e aspetos ecológicos totalmente desconhecidos. Nessa fronteira, de “mundos” diferentes, os Açores constituem, tal como outros montes submarinos e ilhas oceânicas, um local privilegiado para o estudo dessas interações e uma “janela” de investigação inestimável.

Além das reservas da biosfera, o arquipélago dos Açores possui áreas classificadas e reconhecidas internacionalmente por razões ambientais e cientificas com o estatuto de Rede Natura 2000, Património Natural da Humanidade, Áreas RAMSAR e Áreas Marinhas Protegidas ao abrigo da Convenção OSPAR, e outras de âmbito nacional e internacional.

Juntamente com as Galápagos, Sri Lanka e Nova Zelândia, os Açores apresentam uma grande variedade de espécies de cetáceos (ao todo 24 espécies), cuja frequência varia sazonalmente. Devido à ausência de plataforma continental é possível ver espécies pelágicas, que em outras regiões não se aproximam tanto da costa. Durante os meses de Verão, as ilhas são uma região privilegiada para a sua observação e investigação científica.

Registaram-se 34 espécies de tubarões confirmadas nos mares dos Açores. A diversidade entre estas espécies é extrema, variando desde o pequeno Tubarão-anão até ao Tubarão-baleia. O tubarão-baleia (Rhincodon typus) vive habitualmente em oceanos quentes e de clima tropical, é a maior das espécies de tubarão e o maior peixe conhecido. Nos Açores, é também conhecido como Pintado, em virtude do seu dorso estar repleto de pequenas manchas esbranquiçadas.
De um modo geral, podemos dividir os tubarões dos Açores em dois grandes grupos: espécies pelágicas e de profundidade.
É possível observar-se o grande-tubarão-branco (Carcharodon carcharias), o tubarão-mako ou Rinquim (Isurus oxyrhinchus), o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvieri), o tubarão-touro (Carcharhinus leucas), o tubarão-de-pontas-brancas-oceânico (Carcharhinus longimanus) e o tubarão-azul ou Tintureira (Prionace glauca).
Outro aspeto extremamente interessante, tem a ver com a ocorrência, nos Açores, de espécies de várias proveniências: tropicais e subtropicais (p.ex. vejas, barracudas); Mediterrânicas (p.ex. cavacos, badejos) e de águas temperadas frias (p.ex. abróteas, bodiões-vermelhos). Este facto levou a que muitos autores apelidassem os Açores como sendo a “encruzilhada do Atlântico”, precisamente por, aqui, se encontrarem espécies de tão diversas origens e que formam um conjunto marinho absolutamente único e harmonioso.

Ao contrário do que muitos possam imaginar, os Açores possuem colónias importantes de corais, tanto Mediterrânicos como de origem Macaronésia ou Norte-Africana, que, embora não formem recifes, colonizam vastas áreas incluindo grutas mesmo a baixas profundidades. Também existem alguns endemismos marinhos Macaronésios tais como o badejo das ilhas (Mycteroperca fusca), o peixe-cão (Bodianus scrofa) e mesmo uma espécie apenas ocorrente nos Açores, embora ainda sob verificação, o Bodeão-azul (Centrolabrus coeruleus). O tubarão Scymnodalatias licha, do qual apenas se conhecem dois exemplares em todo o Mundo, foi descrito em 1988 a partir de um exemplar capturado nos Açores sendo conhecido, em inglês, pelo nome Azorean Dogfish.

Nas nossas águas é igualmente comum observarem-se tartarugas marinhas, sobretudo a tartaruga-bôbo ou comum (Caretta caretta) que vagueia pelos nossos mares durante um período de maturação e crescimento dirigindo-se depois, ao aproximar-se a idade adulta, para oeste, mais concretamente para as Caraíbas, Golfo do México e Florida. Menos comuns mas igualmente ocorrentes nos Açores, podem encontrar-se outras tartarugas, nomeadamente a maior de todas – a verdadeiramente gigantesca tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), bem como as conhecidas tartaruga-verde (Chelonia mydas), a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) e a rara Lepidochelys kempii, que não tem nome comum entre nós.
A zona de entre-mares dos Açores é, também, especialmente interessante sobretudo devido às colónias das apetecíveis cracas (Megabalanus azorica, uma espécie endémica) e das apreciadas lapas (Patella ulyssiponensis). Ambas colonizam áreas, principalmente a primeira, que, no Continente, estão ocupadas por mexilhões e percebes sendo que os “bezanos” que aparecem fixos em objectos flutuantes são de uma outra espécie, Lepas anatifera. Finalmente, importa referir que, não havendo na Região plataforma continental, a proximidade do Oceano profundo, o maior ecossistema do Planeta e o menos conhecido – apenas cerca de 2 % foi estudado pelo que se sabe mais sobre a Lua do que sobre esta vasta região – permite um intercâmbio diário, que designamos de migrações verticais, de animais de superfície que se alimentam nas profundidades e de animas dessas profundidades que, de noite, migram para se alimentarem nas águas menos profundas e mais ricas em alimento.





Referências bibliográficas:


  1. https://repositorio.uac.pt/bitstream/10400.3/2423/1/PingodeLavaJPB_2013.pdf
  2. https://cibio.up.pt/people/details/macardoso/projects/198
  3. https://www.wilder.pt/historias/nos-acores-areas-marinhas-protegidas-vao-aumentar-mais-15/
  4. https://acores.fandom.com/wiki/Biodiversidade_nos_A%C3%A7ores


3 comentários:

  1. Olá Tomás,

    Gostei muito de ler o teu post sobretudo porque acabei de ler o "As Ilhas Desconhecidas" do Raul Brandão, onde ele faz maravilhosas descrições da pesca e da caça à baleia no teu arquipélago: "Nunca vi tantos e tão lindos peixes. (...) Só o banco da Princesa Alice daria que comer a um império." Infelizmente os nomes que ele dá aos peixes não vêm acompanhados com o nome científico, pelo que muitas vezes é difícil perceber a espécie. Até porque os nomes são muitas vezes regionais, como o próprio Brandão explica ao dizer que o tubarão pode ser chamado de merracho, melracho ou rinquim, ou que o tamboril é chamado peixe-soprador nos Açores. Graças ao teu texto sei agora qual a espécie específica designada por rinquim.

    Também gosto desta frase em que ele faz referência à Atlântida: "lá em baixo não é uma civilização morta, é uma maravilha viva", como o teu texto confirma.

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  2. Interessante artigo sobre a biodiversidade marinha dos Açores. Certamente valerá a pena continuar a aprofundar essa temática, com mais tempo do que aquele que teve para elaborar este artigo. E será com muito gosto que lerei futuros artigos sobre a essa e outras temáticas...

    Aproveito para colocar uma questão: Daquilo que lhe é possível observar, que tipo de interligação ou influência é perceptível entre a biodiversidade marinha e a biodiversidade dos ecossistemas terrestres nos Açores? De que forma uma influência a outra?

    Cumprimentos,
    Carla Sofia Duarte

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  3. Tomás, um texto interessante sobre a bodiversidade marinha dos Açores, mas que não dá resposta ao pedido: reflexão individual sobre “Ameaças à biodiversidade”, feita fundamentalmente com base na bibliografia disponibilizada, e também em pesquisa autónoma.
    Deverá ter especial cuidado às fontes que utiliza (deve focar-se em textos de natureza científica, ex. artigos e livros) e evitar o recurso a cópia de texto (que facilmente são detetados pelo software anti-plágio). A formatação da bibloigrafia também deve seguir as regras de referênciação e citação bibliográfica, ex. APA, Marcos, I (2016) Citar e referenciar: APA 6ª ed. Lisboa : Ed. Autor, pp 61. https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/4934).

    Uma sugestão: aproveite os comentários que são aqui colocados, para dar um maior / melhor enfoque nos aspetos que são pedidos, e assim enriquecer o seu trabalho. Até breve, Paula Nicolau

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Biodiversidade em Espaço Urbano - Açores

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